Eu acredito em refúgios. Acredito na urgência de nos protegermos do mundo e de nós mesmos. Creio na solidão acompanhada, no vazio do olhar, no completo desligamento dos corpos. Tenho fé nos meus olhos congelados e no teletransporte de espírito. Sinto-me confortável onde vou e, por isso, vou.

Vou pra lá. Vou pro prédio de vidro que esconde as minhas incertezas, vou pro apartamento branco e indelicado que aconchega os meus medos, vou sala de claridade infinita que ambienta conversas sobre a vida, a verdade e o universo. Vou pro mesmo lugar de sempre. Vou pro raio que me parte. Vou pra dentro de mim mesmo.

Porque naquele lugarzinho que é só meu, eu tenho controle. O clima é ameno, os sons não incomodam e o céu é estrelado até durante o dia. É tudo branco, é tudo vazio, é tudo pensado pra não chamar a atenção. Porque tudo enquanto importa tem cor. Eu sou sempre colorido, meus visitantes também.

A televisão decora, mas é a estante de livros que impressiona. Tenho uma daquelas poltronas de psicólogo, acho que estimula o raciocínio. O abajur que fica ao lado às vezes amarela e fogo da cozinha nunca foi azul. Não sei de onde vem o café, mas fico feliz que esteja sempre lá.

No corredor eu fixei lembranças em quadros animados. Engraçado é que se eu olhar atentamente, as imagens me conectam, trazem os sons e as emoções, me fazem rir ou chorar. O caminho pro quarto tornou-se tão divertido que na maioria das vezes nem chego até lá. E como o lugar é meu, vale dizer que nunca pensei um banheiro.

A caverna que me abriga tem três andares e um elevador que me leva pra cima e pra baixo. Vidro meus olhos dia sim e no outro também. Acredito em mim, acredito em refúgios. Creio na chuva de meteoros e na minha capacidade de nos proteger. Vem que eu congelo seus olhos, vem que te teletransporto, vem que meu lugar é nosso.